Se tem uma coisa que eu gosto mais do que ver uma pessoa simples e que obviamente não é rica usando roupas bonitas e elegantes (ainda que baratas) é ver uma pessoa simples e que obviamente não é rica com idéias inteligentes e originais.
Sábado passado choveu na hora que eu estava saindo do trabalho (double bummer). Quando entrei no ônibus estava me esforçando para achar algum pensamento que não me fizesse amaldiçoar a chuva ou o fato de ter trabalhado num sábado.
Quando passei pela catraca escutei o que parecia ser um morador de rua (mas que em cidades do interior seria chamado de andarilho) lá do meio do ônibus conversando em voz alta com o cobrador. Cautelosa, sentei perto do cobrador. Escutei toda a conversa durante o caminho.
Eles estavam discutindo a Copa do Mundo que infelizmente acontecerá no Brasil daqui a alguns anos. Ele dizia que todas essas obras de melhorias de São Paulo são feitas somente para agradar aos estrangeiros. É como se antes da Copa não fosse preciso de nenhuma obra, "os brasileiros que se lasquem", mas que com a Copa, "precisamos agradar os turistas".
O cobrador argumentou que todas essas obras irão gerar muitos empregos. "Mas construir hospitais e escolas não gera emprego? Não precisam de engenheiros, arquitetos, pedreiros, médicos, professores?" ele respondeu.
O cobrador achava que mesmo que as obras fossem feitas para os estrangeiros, que elas continuariam ali depois que a Copa acabasse. Ele respondeu com um "Grande coisa." Pois de que adianta gastar dinheiro construindo estádios ou estações de metrô em áreas ricas de São Paulo? O que era preciso mesmo eram obras para os brasileiros, novamente as escolas e hospitais, pois eram obras que depois de construidas continuariam a dar frutos, educando as pessoas e tratando-as, o que não acontece com um estádio que não gera nada.
Nesse momento passamos pelo "novo" hospital da Avenida Dr. Arnaldo. O cobrador disse: "Taí, ó. Você quer hospital, eles construiram um hospital". "É, só demorou 20 anos para construir. E neguinho morre antes de conseguir um exame" ele retrucou.
Segundo ele, deveriam pegar esse dinheiro que estão usando para a Copa (estimativa de bilhões de reais) e usar para obras mais relevantes para a comunidade pobre.
O cobrador então tocou na questão central: "Mas o povo quer que a Copa seja aqui. Vai gerar empregos, vai atrair turismo..." O mendigo retrucou: "É, mas lá onde eu moro na periferia a molecada agora está só cheirando cola. Se não construirem escola nenhuma, daqui a cinco anos eles não vão se contentar em só cheirar cola - vão querer matar turistas."
Antes de mudarem de assunto, ele concluiu: "Eu sei que o povo gosta de futebol, mas eu não quero saber de Copa nenhuma".
É claro que não relatei a conversa palavra por palavra, mesmo porque as expressões "tô ligado", "parada" e "mano" eram usadas frequentemente, mas as idéias são essas.
Veja que interessante: uma pessoa pobre, que parece não ter tido nenhuma educação, talvez somente o ensino fundamental e olhe lá, está ali vendo a realidade a sua volta como ela é, analisando racionalmente os fatos, as situações, as motivações.
Na mesma noite algo igualmente digno de nota aconteceu. De madrugada fui acordada por gritos na rua. Eram gritos de homem, como se alguém estivesse meio cantando ou coisa assim. Não consegui voltar a dormir e pensei em se tratar de algum bêbado. Foi aí que ouvi algo assim: "Direito ***! Mata a cobra e mostra o pau..." Olhei pela janela e vi dois jovens de uns vinte anos, de jeans e camisa social, cambaleando pela rua, gritando esse... hino? e um deles só urrava, ele não gritava coisa alguma, eram só urros, como os de um urso. Imaginei que não estavam nem bêbados porque um bêbado quando faz escândalo ao menos tem um certo propósito.
Lembrei-me da conversa entre o morador de rua e o cobrador que presenciei de tarde.
Engraçado é que se me perguntassem: quem você acha que tem uma visão mais esclarecida da realidade brasileira, estudantes universitários ou um mendigo? eu provavelmente responderia os estudantes. Se me perguntassem: de que você teria mais medo, encontrar de noite numa rua deserta dois estudantes universitários ou um mendigo? responderia o mendigo. Não quero generalizar ou mudar minhas respostas mas acontece que nesses dois casos particulares, eu vi uma pessoa pobre provavelmente sem educação mostranto uma coerência e um compromisso com a realidade e dois universitários vagabundeando de madrugada a tal ponto que chegam a incomodar os outros com seus urros não-verbalizados.
Esse é o detalhe que mais me chamou a atenção: enquanto um discutia, debatia e tinha um argumento na ponta da língua para cada oposição do interlocutor, os outros mesmo com nível universitário não conseguiam verbalizar nenhum pensamento.
Um resolveu interpretar e refletir sobre a realidade por si mesmo e chegou a conclusões que, apesar de simples, só são óbvias depois que a gente as ouve e os outros dois mesmo numa instituição de ensino superior, com todo o aparato de aulas, livros, professores, trabalhos, discussões estavam ali urrando feito ursos.
Eu só sei que ouvir uma pessoa - ainda mais uma pessoa tão diferente de mim - dizendo que não quer saber da Copa me fez sentir um pouco menos sozinha.

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